FILHO DE JOãO GILBERTO DIZ QUE EMI NãO CEDEU GRAVAçõES ORIGINAIS – O GLOBO

Gravadora nega ter dado cópias de masters ao cantor, após decisão judicial

Leonardo Lichote

Motivo da discórdia. Masters entregues a João Gilberto após disputa judicial com a gravadora EMI, familia sustenta que gravadora forneceu cópia

A tentativa de João Gilberto de reaver as fitas originais de seus primeiros discos ganha mais um capítulo. Depois de o cantor obter o direito de ficar com as masters (como as gravações originais são chamadas), que estavam com a gravadora EMI, e tê-las recebido em maio, agora, a autenticidade das fitas é discutida. Como a “Folha de São Paulo” noticiou no último domingo, o produtor João Marcelo Gilberto, filho do músico, afirmou que o material entregue era mera cópia.

– Fomos intimados a nos manifestar oficialmente sobre essa questão – contou Raphael Miranda, advogado da EMI. – Nos surpreende que, em vez de discutir o mérito do processo, que é o direito sobre a propriedade das fitas, os representantes de João Gilberto se prendam a questões periféricas. Não é difícil comprovar que essas fitas são originais. Nos cercamos de técnicos que garantiram sua integridade e autenticidade. Elas são verdadeiras, com absoluta certeza.

Os advogados de João Gilberto dizem que essa intimação para que as partes apresentassem suas provas já estava prevista antes que fatos novos entrassem em discussão:

– Não adotamos nenhum procedimento ainda sobre a autenticidade das fitas – esclarece Rafael Pimenta, um dos advogados de João Gilberto. – O processo não é sobre a conservação ou a autenticidade das fitas, mas, sim, sobre quem tem o direito sobre elas. Mas como surgiram essas novas questões, a EMI entendeu que suas provas devem se referir também a isso.

Pimenta diz que, se a Justiça concluir que as fitas devem ser de propriedade do artista e que as originais não existem mais, vai se abrir uma nova fase:

– A condenação da gravadora de entregar as fitas será impossível de ser cumprida. Portanto, deverá ser convertida em indenização.

CORTINA DE FUMAÇA”

Para o advogado da gravadora, a discussão sobre autenticidade é uma tentativa de “criar uma cortina de fumaça”:

– O que eles querem é que o processo não avance, para tirarem algum proveito por agora estarem em posse das masters.

Proprietário de um estúdio, João Marcelo diz que há várias evidências de que aquelas fitas – referentes aos discos “Chega de Saudade” “O Amor, o Sorriso e a Flor” e “João Gilberto“, além do compacto com músicas do filme “Orfeu do Carnaval” – não são originais:

– Uma das fitas está num formato que só surgiu nos anos 1970 (os discos foram lançadosentre 1959 e 1961). Outra tem as inscrições “export Venezuela” e “stereo copy”. Acredito que a EMI perdeu esse material e teve que buscar pelo mundo alguma cópia em boas condições para nos entregar. Apenas a fita do primeiro disco tem chances de ser original.

O filho do músico lamenta o que considera “um grande desrespeito ao Brasil, à música e ao meu pai”

Eles mentiram tanto durante o processo que é difícil saber o que é original ou não – diz João Marcelo.