Gravadora teme uso comercial do material, e cantor já prepara nova masterização
João acusa a EMI de ter feito uso abusivo de sua obra; perito lembra que não recebeu a master do artista cantando músicas de ‘Orfeu do carnaval’ Leonardo Aversa / Leonardo Aversa/24-08-2008
RIO — As fitas masters (originais) dos três primeiros discos do cantor João Gilberto — “Chega de saudade” (1959), “O amor, o sorriso e a flor” (1960) e “João Gilberto” (1961) — estão em “bom estado de conservação” e “poderiam ser relançadas em qualquer mídia”. A conclusão é do produtor musical e perito Marco Mazzola e consta do laudo que ele entregou à Justiça do Rio na semana passada como parte do processo que o cantor move contra a gravadora EMI. O documento foi obtido com exclusividade pelo GLOBO.
No texto da perícia, Mazzola ressalta, porém, dois pontos. Diz que, ao contrário do que foi estabelecido pela Justiça, no material que lhe foi encaminhado não estava a master de “João Gilberto cantando as músicas do filme ‘Orfeu do carnaval’” (1961) e que a faixa “Um abraço no Bonfá”, do disco “O amor, o sorriso e a flor”, sofre “uma aceleração” entre os segundos 12 e 14 — sendo este “o único problema técnico encontrado” em tudo que ficou sob os cuidados da EMI nos últimos 50 anos.
Com relação ao primeiro ponto, Mazzola informou à Justiça que, em 22 de julho, quando recebeu a caixa com as fitas a serem periciadas, encontrou só um CD de “João Gilberto cantando as músicas do filme ‘Orfeu do Carnaval’” e que, nele, “estavam gravadas apenas três músicas” quando, na verdade, “originalmente este disco é um compacto duplo com quatro músicas”. Mais adiante, no mesmo texto, Mazzola ressalta ainda que, na ficha técnica desse CD, consta a frase: “recuperação de vinil”, o que indicaria não se tratar de um original.
Para os advogados Flávio Galdino e Rafael Pimenta, que defendem João, a não entrega da master de “Orfeu” é um “claro descumprimento de ordem judicial” e indica que “provavelmente esta fita está perdida para sempre” — motivo pelo qual ambos já planejam pedir uma indenização à gravadora.
Por outro lado, o advogado Raphael Miranda, que atua no caso para a EMI, explica a falta da fita master em questão:
— Efetivamente não houve um pedido para entrega dessa fita. Fora isso, nela estão gravados os originais de João Gilberto e outras produções, de outros artistas. Não poderíamos entregar essa fita em detrimento de outras pessoas.
Sobre a faixa “Um abraço no Bonfá”, que sofreu “aceleração”, o perito Marco Mazzola foi enfático ao dizer que não é possível “condená-la”. Segundo ele, “se trata de uma faixa instrumental”, sem a voz de João, que poderia ser facilmente “corrigida através de uma masterização”.
Na conclusão, Mazzola adota posição otimista para a MPB. Diz que os tapes analisados “aparentam ser originais” e que, neles, “não há sinais de fragmentos, violações ou adulterações grosseiras, fato, inclusive, reconhecido pelos assistentes técnicos de ambas as partes (envolvidas no processo) no dia da audição” das fitas.
Os advogados de João salientam, no entanto, que Mazzola não cravou que se tratam das originais do cantor.
— Ele deveria ter usado pelo menos dois processos para proferir uma opinião com segurança. No laudo, ele fala que “parecem ser os originais”. Não que são.
Desde 1980, João Gilberto move uma ação contra a EMI. Pede que as masters desses discos lhe sejam entregues e acusa a gravadora de ter utilizado de forma “abusiva e ilícita” sua obra. O cantor se refere ao fato de que, em 1987, a EMI lançou uma coletânea sem sua autorização e modificou tanto a sonoridade quanto a ordem das faixas dos LPs originais.
Em julho, Marcelo Gilberto, filho de João, chegou a dizer que a gravadora teria devolvido a seu pai apenas as cópias dos discos, em vez das masters. Na época, a EMI negou as acusações. Agora, o advogado da empresa acredita que o juiz Sérgio Wajzenberg, da 2ª Vara Cível, convocará uma audiência de conciliação.
— O laudo do perito é muito técnico e preciso na questão da identificação e da qualidade das fitas. Aos poucos, desmistificamos todas as acusações contra a gravadora — destaca Miranda — Agora, nos preocupa o uso comercial desse material. João poderia fazer uso dele à revelia do contrato que firmou com a EMI.
E esse parece ser mesmo o caminho. Segundo o advogado de João, ele já trabalha numa nova remasterização:
— O objetivo do cantor é deixar sua obra verdadeira para futuras gerações. Não o sucateamento deixado pela EMI.
Cristina Tardáguila – Publicado em 19/09/13 no O Globo